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Quatro pessoas leem juntas ao redor de uma mesa, com uma praça e montanhas ao fundo

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A virada histórica de Lula: por que a vitória emocionou e três livros para pensar a América Latina

Depois de ficar atrás no primeiro turno, Lula venceu uma eleição que mobilizou o Brasil. Para compreender as perguntas que atravessam o resultado, convidamos você a abrir três livros.

Atualizado: 2026-10-27

A leitura também pode ser uma conversa sobre o futuro compartilhado. · Ilustração editorial gerada por IA para BookFormat

Há noites eleitorais que parecem caber numa planilha. Outras transbordam: para algumas pessoas, são noites de alívio, abraços e lágrimas; para outras, de apreensão e desacordo. No Brasil de 25 de outubro de 2026, as duas experiências fizeram parte do mesmo resultado.

Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Três semanas antes, no primeiro turno, Lula havia ficado atrás: 45,16% contra 47,03%. Segundo a Câmara dos Deputados, foi a primeira vez que o segundo colocado na disputa presidencial virou o resultado no segundo turno desde a volta das eleições diretas. A vitória lhe garantiu um quarto mandato presidencial; a margem apertada também revelou um país profundamente dividido.

Por que a virada aconteceu — e por que emocionou?

Ainda é cedo para transformar uma eleição complexa numa explicação única. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo. Reportagens sobre a campanha apontaram mobilização nas ruas e nas redes, participação de jovens e o esforço de alcançar quem não tinha votado. Esses movimentos ajudam a pensar a virada; os números agregados, sozinhos, não mostram em quem cada pessoa votou ou por quê.

Para muitos apoiadores, o resultado reuniu sentimentos difíceis de separar: identificação com a trajetória de Lula, esperança em políticas sociais, defesa da democracia e preocupação com a Amazônia. Na Avenida Paulista, a reportagem do Le Monde descreveu uma multidão em festa e um presidente emocionado. Grupos indígenas e ambientalistas também manifestaram alívio, embora tenham alertado para desafios no Congresso. Isso não significa que todos os brasileiros, ou todos os latino-americanos, sintam a mesma coisa.

Para leitores de países vizinhos — inclusive no México —, é possível reconhecer na notícia perguntas familiares sobre desigualdade, soberania e participação. A emoção que atravessa fronteiras não precisa apagar as diferenças entre nossos países nem transformar nossa reação individual na voz de uma nação inteira.

Uma eleição dura um domingo; suas perguntas vêm de muito mais longe. Quem decide o destino de um país? Quem se beneficia de sua riqueza? O que uma comunidade faz quando o poder prefere que ela esqueça? Uma obra de ficção, um ensaio e uma investigação jornalística oferecem caminhos diferentes para conversar sobre isso.

Esta é uma seleção editorial baseada em fontes, não uma resenha feita a partir da leitura integral das obras. Os livros têm perspectivas próprias e merecem ser lidos com curiosidade, confronto de ideias e liberdade para discordar.

1. Cem anos de solidão: a história também mora numa família

Gabriel García Márquez nos leva a Macondo, o povoado imaginário onde gerações da família Buendía vivem o amor, a perda, as guerras e o extraordinário como parte do cotidiano. É uma entrada literária para esta conversa, embora não seja necessariamente leve: há violência, solidão e uma genealogia que pede atenção.

Entre os episódios do romance estão a chegada de uma companhia bananeira estrangeira e a violência contra trabalhadores que exigem direitos. A ficção dialoga com a greve bananeira de 1928 na Colômbia e a presença da empresa estadunidense United Fruit Company. A repressão histórica foi executada pelo Exército colombiano: atribuí-la apenas a agentes estrangeiros apagaria as decisões de autoridades locais.

O romance não é um documento histórico nem descreve a política dos Estados Unidos de hoje. Ele convida a perguntar como uma comunidade lembra — ou deixa de lembrar — o sofrimento e como interesses econômicos podem transformar um lugar. A edição brasileira tem tradução de Eric Nepomuceno; confira a edição disponível na sua biblioteca ou livraria.

Livro aberto sobre uma mesa diante de uma paisagem imaginária de campos, montanhas e um povoado
Uma janela imaginária para as histórias e perguntas do continente. · Ilustração editorial gerada por IA para BookFormat

2. As veias abertas da América Latina: seguir o caminho da riqueza

Publicado originalmente em 1971, o ensaio do uruguaio Eduardo Galeano interpreta a história regional a partir da extração de recursos, da desigualdade e das relações de dependência. Sua pergunta é quem recebe os frutos do trabalho e da terra — e que papel desempenham potências estrangeiras e elites locais.

É uma obra de denúncia com posição política reconhecível, não uma enciclopédia neutra nem uma explicação definitiva de todas as economias latino-americanas. Vale lê-la em diálogo com pesquisas históricas e econômicas mais recentes: o que sua perspectiva ilumina, o que precisa ser matizado e como as relações de dependência mudaram desde então? A edição da L&PM apresenta tradução de Sergio Faraco.

3. Operação massacre: investigar quando o poder quer impor silêncio

O argentino Rodolfo Walsh publicou Operação massacre em 1957, depois de investigar o fuzilamento de civis em José León Suárez, em 1956, durante a ditadura instaurada após a derrubada de Juan Domingo Perón. Com depoimentos e documentos, sua investigação reconstruiu acontecimentos que desafiavam a versão oficial.

É uma leitura mais dura, com repressão e morte. Sua pergunta atravessa fronteiras: quem pode denunciar, quem é ouvido e o que acontece quando instituições exercem violência contra as pessoas que deveriam proteger? A edição brasileira da Companhia das Letras tem tradução de Hugo Mader. O caso é argentino e específico; não é uma cópia automática dos conflitos atuais.

Brasil, Estados Unidos e uma pergunta que retorna

A eleição brasileira ocorreu em meio a tensões com o governo de Donald Trump. A Associated Press documentou tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e pressões relacionadas à situação judicial de Jair Bolsonaro. Uma investigação da Reuters relatou que dois funcionários americanos impulsionaram uma estratégia para favorecer o retorno político da família Bolsonaro, segundo autoridades atuais e ex-autoridades ouvidas pela agência. Essas informações pedem exame e contexto; não provam que uma eleição possa ser explicada por uma única causa.

As perguntas conversam entre si, mas não são situações idênticas: a companhia bananeira de Macondo não é o governo americano de hoje, e o Brasil de 2026 não é a Argentina de 1956. A história nos ajuda mais quando reconhecemos as diferenças do que quando encaixamos todos os acontecimentos no mesmo molde.

Por onde começar?

Se você se aproxima das ideias por personagens e famílias, comece por Cem anos de solidão. Para discutir riqueza e desigualdade, siga com Galeano. Se o jornalismo que investiga a violência do Estado é o que mais lhe interessa, reserve um momento para Walsh. Não existe ordem obrigatória: cada livro ilumina uma parte diferente da pergunta pelo poder.

A autodeterminação também se constrói entre nós

A autodeterminação dos povos não termina numa eleição nem exige que todas as pessoas pensem igual. Ela precisa de instituições que respeitem o voto e os direitos, liberdade para discordar, participação dos povos indígenas e daqueles que costumam ficar fora das decisões, e espaço para que pressões externas ou internas não substituam a vontade cidadã.

Também precisamos perguntar o que chamamos de prosperidade. Um bem comum digno desse nome não se mede apenas pelo tamanho da economia, mas pela distribuição das oportunidades, pelo cuidado com a terra compartilhada e pela possibilidade de viver com liberdade, segurança e dignidade. A igualdade não apaga diferenças: procura garantir que nenhuma voz valha menos por sua origem ou condição.

Ler não resolve essas disputas. Mas pode nos tornar melhores companheiros de conversa: mais atentos à memória, menos satisfeitos com respostas fáceis e mais capazes de imaginar um futuro próspero e justo que cada povo ajude a construir. Que livro você acrescentaria a esta conversa?

Fontes e referências

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